quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Unidade XXVI - A África após 1945

A África após 1945

O processo de descolonização

Os fatores de influência

- a propagação do princípio da autodeterminação das nacionalidades, que embasou o processo de desmembramento dos impérios europeus após a Primeira Guerra Mundial;

- o surgimento de lideranças nacionalistas, que atuaram como canalizadores do sentimento da nacionalidade e mobilizando o povo em torno do projeto emancipacionista;

- o enfraquecimento das potências colonialistas em razão da Segunda Guerra Mundial, o que as deixou sem condições de impedir o avanço da descolonização;

- o apoio recebido das nações reunidas em Bandung em 1955;

- o interesse das superpotências em ampliar suas áreas de influência, o que as levou a apoiar os movimentos de libertação das colônias. O risco neste caso foi o fato de as duas superpotências apoiarem grupos distintos dentro de um mesmo país, o que concorreu para as frequentes guerras civis no continente africano.

As vias de libertação

- a via negociada ou pacífica:
 nela o colonizador admitiu reconhecer a independência da colônia de modo que os vínculos econômicos, políticos e culturais ficassem preservados. Dessa maneira a independência não representa uma ruptura total com a antiga metrópole. Essa prática os ingleses utilizaram-na de modo a integrar suas ex colônias em membros da Commonwealth (Comunidade Britânica). Os franceses, em menor escala, também buscaram construir uma comunidade francesa com suas ex colônias.

- a via violenta: nela o colonizador ofereceu resistência à emancipação de suas colônias, conduzindo o processo irremediavelmente a uma guerra de libertação. Nesse caso há uma ruptura real dos laços entre a ex colônia e a ex metrópole.

- a via revolucionária: ela representa um desdobramento da via violenta e traduz a opção pela via socialista por parte do movimento de libertação.



O estudo de casos africanos

Argélia

     Entre 1954 e 1962 transcorreu a Guerra da Argélia entre o movimento nacionalista (Frente de Libertação Nacional) argelino liderado por Ahmed Ben-Bella e o Estado Francês. Essa guerra decorreu do fato de a França não admitir a emancipação argelina, proclamada em 1954. Para a França a independência da Argélia era interpretada como separatismo, aja vista que o Estado Francês classificava a Argélia como um Departamento, ou seja, uma unidade territorial e política francesa. Por outro lado, havia na Argélia uma elite francesa, os pied-noirs, que, com o apoio da extrema-direita francesa, pressionou o governo da França para não aceitar a emancipação dos argelinos.
     O conflito foi marcado por ações de violência de ambos os lados. A Frente de Libertação levou a guerra para dentro do território francês, ao promover sucessivos atentados, o que deixou o povo francês assustado e favorável a emancipação. Em 1958, os franceses recorreram ao General Charles De Gaulle, comandante do exército da França-Livre na Segunda Guerra, para ocupar o cargo de 1º ministro apostando na sua capacidade de comandar a vitória francesa. Entretanto, De Gaulle, eleito posteriormente Presidente, entendeu que o melhor caminho era o acordo de paz. Respaldado num plebiscito, De Gaulle negociou com Ben-Bella o Acordo de Evian em 1962, no qual a Argélia se tornava um Estado independente.
     Chama atenção o fato de que a elite pied-noir e a extrema direita, frustradas pela independência argelina, patrocinaram uma Organização Terrorista (Organização do Exército Secreto –OES-) cujo propósito inicial era o de inviabilizar o entendimento, chegaram até mesmo a  organizar um fracassado atentado contra De Gaulle.

Congo

     Ex colônia belga, a atual República Democrática do Congo, que já se chamou República Popular do Congo e República do Zaire, se tornou independente em 1960 através de uma negociação entre o movimento de libertação e o governo belga. Entre 1961 e 1963 o país atravessou uma guerra civil, que envolveu o governo nacional formado por Joseph Kasavubu e Patrice Lumumba e as forças separatistas lideradas pelo governo da Província de Catanga de Moisé Tshomb.
     A guerra civil traduziu não apenas a posição separatista de Catanga, mas também os interesses das mineradoras internacionais, que foram atingidas pela nacionalização das reservas minerais decretado pelo governo Kasavubu-Lumumba. Durante o conflito Lumumba deixou o governo e, de forma pouco esclarecida, foi seqüestrado e morto pelos rebeldes separatistas de Catanga. Em 1963 foi assinado um acordo de paz entre Kasavubu e Tshomb, em que este acabou indicado 1º ministro. Entretanto, em 1965 o país passou por um Golpe Militar liderado pelo Coronel Mobutu Seko com o apoio do governo norte americano (Lyndon Johnson), que instalou uma ditadura violenta e corrupta até 1997. Foi o Coronel Mobutu o responsável pela adoção do nome de República do Zaire em 1972.

 Nigéria

   
A ex colônia britânica obteve a independência no início da década de 1960 e emancipada ingressou na Commonwealth, de modo que, os laços políticos e econômicos com a Inglaterra foram mantidos, inclusive a presença de petrolífera britânica atuando no país.
     Em 1967 a Nigéria começou a enfrentar uma violenta guerra civil, que se estendeu até 1970. Esse conflito conhecido como Guerra Nigéria-Biafra ou apenas Guerra de Biafra, decorreu da tentativa da região de Biafra de se tornar independente do Estado Nigeriano. Essa guerra foi uma das mais violentas na África, com milhares de mortes provocadas pela fome, cujas imagens eram transmitidas para o Ocidente. A Guerra de Biafra terminou com o recuou separatista dos Ibos (tribo dominante na região) e a preservação da unidade nacional nigeriana.


A África Portuguesa

     As colônias portuguesas na África (Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) obtiveram a independência em 1975 após a vitória  da Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974 contra o Salazarismo. Essa conquista traduziu a participação do movimento nacionalista nas colônias na luta contra a ditadura salazarista após a Segunda Guerra Mundial. Com relação ao processo de emancipação vale ressaltar, que em Angola e em Moçambique, após terem sua independência reconhecida pelo governo português instalado após a Revolução, enfrentaram guerras civis em seus territórios nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Essas guerras repercutiram a falta de unicidade política e ideológica nas várias correntes, que compuseram o movimento nacionalista angolano e moçambicano. Se não bastasse isso, essas guerras repercutiram também a polarização ideológica que marcava a Guerra Fria, logo a rivalidade entre o capitalismo norte americano e o socialismo soviético.

(1975/2002) A Guerra Civil Angolana

     Em 1975 através do Acordo de Alvor Angola foi reconhecida como país independente. Entretanto, na luta pela libertação formaram-se três grupos: MPLA, FNLA e UNITA. A impossibilidade de constituir um governo de unidade provocou uma disputa entre as lideranças o que levou os grupos a serem protagonistas de uma guerra civil.
     O MPLA liderado por Agostinho Neto instalado em Luanda se apresentou como representante do poder, o que não foi reconhecido pela FNLA liderada por Holden Roberto, como também pela UNITA sob o comando de Jonas Savimbi, daí o início da guerra civil.
     O MPLA contou com apoio de Cuba, da mesma forma que a FNLA teve a ajuda do Zaire do Coronel Mobutu e contou com a ajuda material de Londres e de Washington. Por outro lado a UNITA recebeu todo o suporte do regime do apartheid sul africano e dos EUA e do Reino Unido.
     O fim da Guerra Fria no final dos anos 80 teve forte influência no cessar fogo firmado em 1992 e no acordo para realização de eleições. Entretanto, o líder da UNITA derrotado nas eleições presidenciais não concordou com o resultado e decidiu retomar a luta armada contra o governo do MPLA de José Eduardo Santos, que substituíra Agostinho Neto morto em 1979 e que foi eleito presidente em 1994. A morte de Jonas Savimbi em 2002 foi decisiva para assinatura do acordo de paz. 


(1975/1992) A Guerra Civil Moçambicana

     Moçambique teve uma situação muito similar a de Angola, pois com a independência reconhecida em 1975, não foi possível formar um governo de união nacional, porque a FRELIMO de orientação marxista sob a liderança de Samora Machel e com apoio cubano, assumiu a condição de governo nacional o que não foi reconhecido pela RENAMO grupo anticomunista, apoiado pelos governos da África do Sul, da Rodésia e dos EUA. A posição da Renamo foi decisiva para o início da guerra civil.
     Em 1992 na conjuntura pós Guerra Fria, foi assinado o Acordo Geral de Paz, que pôs fim a guerra civil e que transformou a FRELIMO e a RENAMO em partidos políticos.





       
 O envolvimento da África do Sul nas guerras civis angolana e moçambicana

     O apoio oferecido pelo governo racista do Apartheid aos grupos  que combatiam o MPLA em Angola e a FRELIMO em Moçambique, deveu-se ao fato de:

- serem ambos os governos comunistas;

- por darem apoio à Frente de oposição ao Apartheid no continente africano;

- por oferecerem ajuda a SWAPO, Organização Popular da África Sul Ocidental, na luta de libertação da Namíbia, região dominada pela África do Sul,

 


África do Sul e o Apartheid

     A região da extremidade sul do continente africano foi palco do interesse dos europeus desde o século XV, dada a sua posição estratégica na transição do Atlântico para o Índico. No final do século XIX foi teatro de uma guerra entre ingleses e holandeses pelo controle das regiões de diamantes e de ouro do Transvaal e do Orange, a Guerra dos Böers.

     No século XX ali se instalou o mais odioso regime político, o Apartheid. Na África do Sul a minoria branca , formada por descendentes de ingleses e de holandeses institucionalizou a segregação racial, excluindo a maioria negra da condição de cidadania. Pelas leis do Apartheid os negros não podiam ser proprietários de terras, não tinham representação política, deveriam habitar regiões separadas das ocupadas pelos brancos, não podiam se casar com brancos e as relações sexuais interraciais foram consideradas ilegais, A separação física entre brancos e negros se traduziu na criação dos Bantustões, as áreas no interior destinadas as comunidades negras e das favelas localizadas na periferia das grandes cidades como a de Soweto e a de Sharpeville, que constituíram núcleos da resistência dos negros contra o Apartheid.
     Na luta contra o Apartheid destacou-se o CNA (Congresso Nacional Africano) em que despontou a liderança de Nelson Mandela um admirador confesso de Gandhi, que também defendia a via pacífica contra o Apartheid. Entretanto, o assassinato em 1960 de cerca de 70 negros no Massacre de Sharpeville em razão de uma manifestação pacífica contra o regime, mudou os rumos da luta de resistência, que ganhou um tom de maior contundência e de violência. A resposta do governo não tardou: o CNA foi colocado na ilegalidade e Mandela foi capturado e condenado a prisão perpétua.
     Nas décadas de 1970 e 1980 a pressão internacional contra o Apartheid aumentou. Em 1972 a África do Sul foi excluída dos Jogos de  Munique, porque havia uma ameaça de boicote aos jogos pelos países africanos. Em 1977 foi decretado o embargo da venda de armas para a África do Sul. Em 1985 a ONU impôs sansões econômicas à África do Sul. Em 1989 nas eleições sul africanas houve a formação do governo Frederick De Klerk, que deu início a um processo de transição pela via negociada, cujo primeiro passo foi libertar Mandela da prisão, em seguida revogar as leis segregacionistas ratificadas por um plebiscito em que 69% dos brancos votaram a favor. O processo de transição política foi concluído em 1994,  com as primeiras eleições multirraciais, com a vitória de Mandela candidato do CNA.

  
 Em 1993 a Academia Sueca, conferiu a De Klerk e a Nelson Mandela o Nobel da Paz.


        No governo Mandela foi aprovada a Lei dos Direitos sobre a Terra e a criação da Comissão de Reconciliação e Verdade, esta para investigar, esclarecer e denunciar os responsáveis por crimes de tortura e de mortes no período do Apartheid. Esta Comissão foi presidida por uma das mais importantes figuras sul africanas na luta de resistência ao Apartheid, o Bispo Anglicano Desmond Tutu, cuja luta o levou em 1984 a ganhar o Nobel da Paz.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Unidade XXV: O Oriente Médio após 1945


O Oriente Médio após 1945 

Os conflitos árabe-israelenses
 

    Os problemas entre os árabes e os judeus tiveram início no final do século XIX, na década de 1880, em que foi organizado na Europa o Movimento Sionista pelo jornalista Theodor Herzl, cujo propósito foi o de reunir recursos para que o máximo de judeus se transferisse para a região da Palestina, de modo a construir ali o Estado de Israel, ou o lar dos judeus na Terra Prometida ou na Terra de Canaã.
A partir da chegada na Palestina, os judeus formaram suas comunidades (o que deu origem aos kibutzim) e não as abriram para o ingresso dos árabes, ao contrário os judeus tiveram a preocupação de criar uma milícia armada (haganah), utilizada contra os árabes. A situação foi se agravando a medida que aumentava a imigração de judeus, como aconteceu após a Primeira Guerra, sobretudo na década de 1930 em razão da intolerância promovida pelos nazistas do II Reich.

 A Primeira Guerra Mundial e a formação dos Estados Árabes

      Na Primeira Guerra Mundial, em razão da derrota do Império Turco-Otomano houve o desmembramento do império no Oriente Médio e a formação de novos Estados Nacionais. Esse processo foi coordenado pelos britânicos e pelos franceses, nomeados Mandatários e responsáveis pela definição das fronteiras na região. De um modo geral isso foi feito, não obstantes algumas reclamações como a dos iraquianos com relação a criação do Kuwait e dos sírios com relação ao território do Líbano.
     Entretanto, a questão ficou problemática na Palestina isto porque os britânicos tinham um acordo com os judeus, firmado na Primeira Guerra em que os banqueiros judeus financiaram o esforço de guerra britânico e em troca o governo do Reino Unido se comprometia a ajudar na construção de Israel. Mas havia todo interesse econômico britânico (exploração de petróleo) junto aos territórios árabes, o que fez o Reino Unido ficar numa saia justa na Palestina. Daí a solução adotada foi manter o território sob Mandato, ou seja, não foi criado nenhum estado, fosse ele árabe ou judeu.      No entanto, após a Segunda Guerra a pressão pela concessão do território aos judeus aumentou, sobretudo com a revelação de imagens dos fatos ocorridos nos campos de extermínio durante o 2º conflito mundial. Daí a decisão da ONU em 1947 em dividir a Palestina entre os árabes e os judeus.      Após a divisão território, que desagradou os Estados Árabes vizinhos, os judeus se mobilizaram para a construção de seu Estado, o que aconteceu oficialmente em 14 de maio de 1948, sob a liderança de David Ben- Gurion.

 (1948/1949) A 1ª guerra árabe-isralense (Guerra de Independência) 

     No dia 15 de maio de 1948, ou seja, no dia seguinte a fundação de Israel teve início da primeira guerra entre os árabes e o Estado Judeu. Esse conflito teve a iniciativa da Liga Árabe (Líbano, Síria, Jordânia, Iraque e Egito), cujo propósito era expulsar os judeus da Palestina. Nessa guerra se evidenciou o poderio bélico dos judeus, com a vitória sobre a Liga Árabe. Esse conflito alterou o mapa da Palestina, com a distensão dos territórios controlados pelos judeus. O resultado da guerra levou a ONU a subordinar politicamente a Faixa de Gaza ao Estado Egípcio e a Cisjordânia ao Estado Jordaniano e não fez nada para que Israel se retirasse dos territórios alcançados na guerra, como no caso da Galileia.

 (1956) A Guerra de Suez 

      Esse conflito envolveu o Egito, Israel, a França e o Reino Unido e teve origem na decisão do presidente egípcio Abdel Gamal Nasser de nacionalizar o Canal de Suez até então controlado pelos britânicos e franceses, assim como, promover o bloqueio do Canal de Tiran, acesso ao Porto israelense de Eilath, em que é feito o desembarque do petróleo. 
     Imediatamente os governos de Londres, de Paris e de Tel Aviv promoveram uma ofensiva contra o Egito. Uma guerra só interrompida pela interferência dos Estados Unidos e da URSS. A pressão de Washington sobre a aliança anti egípcia convenceu-a a paralisar a ofensiva. Após o acordo, coube a ONU enviar uma força de paz para o Canal de Suez e outra para Tiran de modo a assegurar a livre navegação em ambos. Apesar do incentivo de Nasser aos palestinos para atacarem Israel, a guerra, ao seu término, não trouxe nenhuma alteração territorial na Palestina.




                                                       O Nasserismo

      Em 1954 o coronel egípcio Gamal Abdel Nasser liderou um golpe de estado que   destituiu o rei Faruk I, derrubou a monarquia e criou a república do Egito. A frente do poder como presidente, Nasser se destacou como uma das mais importantes lideranças presentes na Conferência de Bandung de 1955, portanto como defensor do não-alinhamento, assumiu um nacionalismo econômico que contrariou interesses estrangeiros no país e defendeu com intensidade o pan arabismo, cujo resultado mais expressivo tenha sido uma momentânea união com a Síria, na República Árabe Unida (R.A.U.) criada em fevereiro de 1958 e extinta no final do ano de 1961. Os sírios mostraram-se descontentes com o fato de o poder ter ficado nas mãos do Egito e a Síria colocada num segundo plano.

          Em 1956 materializando o nacionalismo, Nasser nacionalizou o Canal de Suez e a empresa franco-britânica que o administrava. A ação de Nasser provocou a reação de Londres e de Paris, que se aproximaram de Tel Aviv em razão do bloqueio do Canal de Tiran, e assim promoveram uma ofensiva contra o Egito.    

Entre os desdobramentos da guerra, um foi à aproximação mais forte entre o Cairo e Moscou, cujo resultado mais expressivo foi à construção da Barragem de Aswan.    Em 1970, por causas naturais, morreu o Presidente Nasser. O cargo foi ocupado pelo vice Anwar Al-Sadat, que permaneceu no cargo até 1981, distanciando-se das diretrizes nasseristas, assim como da URSS e adotando um alinhamento aos EUA e negociando um acordo de paz com Israel (Acordo de Camp David). Em 1981, vítima de um atentado no país, Sadat morreu e foi sucedido por Mubarak.

 [Caderno de anotações de aula. Professor Luis Francisco]



(5 a 11 de junho de 1967) A Guerra dos Seis Dias 

     Essa foi a guerra que colocou toda a Palestina sob controle israelense. A ofensiva militar de Israel sobre o Egito, a Síria e a Jordânia foi justificada por Tel Aviv como sendo uma ação preventiva, uma vez que o serviço secreto de Israel, o Mossad detectou a organização de uma ação conjunta desses países contra Israel. Além disso, Israel acusou os árabes de darem abrigo aos guerrilheiros da OLP, considerados pelo Estado Judeu como terroristas. Conforme a lógica mais tarde defendida pelo presidente George W. Bush, Estado que dá abrigo aos terroristas é terrorista.
     A guerra foi rápida graças a iniciativa israelense de promover uma ofensiva aérea que abateu a aviação egípcia no solo e destruiu as pistas de decolagem e uma ofensiva terrestre sobre a Faixa de Gaza tutelada pelo Egito e Sinai península egípcia, sobre as Colinas de Golã da Síria e sobre a Cisjordânia sob tutela da Jordânia. A ação israelense foi rápida e contundente não dando chance de resistência aos países árabes.      Não obstante a Resolução 242 de novembro de 1967, na qual ONU condenou Israel e “exigiu” a devolução dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, o Estado Judeu se instalou em toda a Palestina, ocupando a Faixa de Gaza e a Cisjordânia e ocupou também a Península do Sinai e as Colinas de Golã. De modo que o território israelense, que em 1947 possuía 14,5 mil km² passou a ter uma área superior a 70 mil km² em 1967.

 
(6 a 26 de outubro de 1973) A Guerra do Yom Kippur

   Nessa guerra a iniciativa coube aos árabes, que atacaram de forma inesperada Israel. Pelo norte, os sírios, e pelo sul os egípcios. Apesar da surpresa, na segunda semana do conflito Israel já se tornara dominante, revertendo às expectativas árabes. Com a possível intervenção dos EUA e da URSS, a ONU negociou um cessar fogo assinado em 25 de outubro. A exemplo da Guerra de Suez, a Guerra do Yom Kippur não provocou nenhuma alteração territorial. Israel manteve os territórios ocupados em 1967 sob seu domínio. Esta guerra foi a última entre o Estado de Israel e os Estados Árabes. Isto não significa dizer que tenham terminado os conflitos entre Israel e os árabes, sobretudo com aqueles que assumiram a luta pela libertação da Palestina –OLP- liderada por Yasser Arafat, substituída pela ANP (Autoridade Nacional Palestina) e também por aqueles que defendem uma luta permanente contra Israel como são os casos do Hammas localizado na Faixa de Gaza e o Hezbollah instalado no sul do Líbano.


Alguns sinais de paz

     Nos anos 1970, 1980 e 1990 a questão árabe-israelense ganhou alguns capítulos, que sugeriram a possibilidade de se estabelecer a paz na região como, por exemplo:

1978 – Assinatura do Tratado de Camp David (residência de verão do presidente dos EUA em Maryland) entre o governo egípcio (Anwar Al-Sadat) e o 1º ministro israelense Menahem Begin mediado pelo presidente Jimmy Carter.. Nesse acordo ficou estabelecida a devolução da Península do Sinai ao Egito e em troca o Egito reconheceria o Estado Judeu e abandonaria a luta pela sua destruição. Não há dúvida que esse episódio foi determinante para o atentado que vitimou Al-Sadat em 1981.

1985 – A decisão da OLP de reconhecer o Estado de Israel e admitir a criação de um Estado Palestino. Esta posição foi ratificada por Yasser Arafat num pronunciamento feito na Assembleia Geral das Nações Unidas realizada em 1987 na cidade de Genebra. Essa proposta da OLP não provocou nenhum entendimento com Tel Aviv, mas provocou a formação de grupos dissidentes, que não reconheciam mais a autoridade de Arafat para representá-los e não aprovavam a proposta de paz, posição do Hammas e do Hezbollah.
     O Hammas surgiu em meio a primeira Intifada em 1987 (a Revolta das Pedras) com o apoio da Irmandade Muçulmana do Egito. O grupo se opõe ao Fatah (grupo oriundo da OLP) e prega a fundação do Estado Islâmico Palestino e a extinção de Israel.
     O Hizbollah ou Hezbollah surgiu como uma milícia de resistência à invasão israelense no sul do Líbano. Inspirado e treinado na Guarda Revolucionária Iraniana, o Hezbollah não reconhece Israel e defende a sua destruição.

1993/1994- O Protocolo de Oslo e Acordo de Washington ambos negociados pelo 1º ministro de Israel Yitzhak Rabin e o líder da OLP Yasser Arafat, com a mediação do então Presidente dos EUA Bill Clinton. Nesse acordo ficou estabelecida a devolução da Faixa de Gaza e da cidade de Jericó aos palestinos para que fosse constituído o governo da Autoridade Palestina (ANP) e o consequente reconhecimento palestino do Estado de Israel. Entretanto, o assassinato de Rabin na campanha eleitoral de 1995 seguida da vitória da direita israelense representada no Likud e na formação do governo Netanyahu, inviabilizou o cumprimento de uma agenda de encontros alinhavada pelos líderes em Washington.  De modo que, desde 1995 não houve nenhum avanço nas negociações de paz entre Tel Aviv e a Autoridade
     Em 2013 a Casa Branca enviou o Secretário de Estado Americano John Kerry para promover uma discussão entre o Primeiro Ministro Israelense Benjamin Netanyahu e o Presidente da Autoridade Nacional Palestina Mahmoud Abbas. Essa iniciativa retomava uma pauta que ficou estagnada por vinte anos, ou seja, desde a assinatura do acordo nos Jardins da Casa Branca pelo então Primeiro Ministro de Israel Yitzhak Rabin e o então líder palestino da OLP Yasser Arafat, mediado pelo Presidente Bill Clinton. Esse acordo ratificava a discussão ocorrida antes em Oslo entre os dois líderes.
     Em  2014 contrariando as expectativas de 2013, o que se viu foi uma guerra que vitimou quase dois mil palestinos, em grande maioria, civis e entre os quais muitas crianças. De acordo com o Primeiro Ministro Netanyahu os ataques israelenses não cessarão enquanto as forças do Hammas não forem destruídas. O máximo que se tem visto são pequenos intervalos nos ataques israelenses, que não se configuram como trégua.

A Guerra Civil do Líbano

    Desde a formação do Estado do Líbano, ficou estabelecido um entendimento entre as diferentes correntes religiosas para a composição do governo. Assim cristãos maronitas, sunitas e xiitas, cristãos ortodoxos e drusos deveriam construir um governo de coalizão e de equilíbrios entre os diferentes grupos étnicos e/ou religiosos.
     Entretanto, essa possibilidade de união nacional foi colocada em xeque nos anos 1970 em razão da entrada de refugiados palestinos, egressos da Jordânia, situação não aceita pelos maronitas que exigiam a expulsão dos mesmos. A razão era o fato de que nessa condição os muçulmanos constituiriam uma maioria que poderia quebrar o frágil equilíbrio. Além disso, havia o fato de que entre os refugiados estavam os integrantes da OLP, que não se submetiam a autoridade libanesa.
     Apesar dos esforços da ONU para que se mantivesse a coalizão, em 1975 teve início a guerra civil no Líbano. O conflito ganhou maiores proporções em razão das intervenções síria e israelense. A intervenção israelense em apoio aos cristãos implicou a ocorrência de massacres em Beirute, nos bairros de Sabra e Chatila, em que morreram cerca de 2.000 pessoas em sua maioria, velhos e crianças.
     Entre 2000 e 2005 acendeu uma luz no fim do túnel, Israel e a Síria se retiraram do Líbano, apontando para a reconstituição da coalizão. Entretanto, com a instalação desde 1982, no sul do país, do grupo Hezbollah cuja proposta é a de combater Israel para destruí-lo tem motivado uma série de conflitos naquela região, com ataques israelenses ao Hezbollah, que invariavelmente atingiram a população civil. Desde 2006 há um acordo de cessar fogo, proposto pela ONU, o que não é uma garantia absoluta, mas é que se tem para o momento.

A Guerra Irã-Iraque (1980-1988)

     Entre 1980 e 1988 ocorreu a guerra entre o Irã e o Iraque. Há um consenso entre os analistas, que o conflito foi iniciado pela ofensiva iraquiana liderada pelo Presidente Saddam Hussein cujos propósitos seriam: assumir a condição de voz do mundo muçulmano sufocando os xiitas e incorporar ao domínio iraquiano as áreas petrolíferas iranianas. O ataque iraquiano ocorreu num momento em que o Irã atravessava uma turbulência política provocada pela queda do Xá Reza Pahlevi em razão da Revolução Xiita sob a liderança do Aiatolá Ruholá Khomeini. O argumento usado pelo líder iraquiano foi a acusação aos iranianos de estarem violando a fronteira do Iraque na região do Chat El-Arab, área de escoamento do petróleo do Iraque.
     Essa Revolução representou além de uma ação xiita contra os sunitas, representados no Xá, era também uma atitude contra o ocidentalismo adotado por Reza Pahlevi e a sua submissão aos EUA. O antiamericanismo exaltado pelo Aiatolá foi responsável pela ação de jovens iranianos, que invadiram e ocuparam a Embaixada dos EUA em Teerã, em que fizeram 52 reféns. Esse episódio, já mencionado em capítulo anterior, determinou a ruptura de relações entre os dois países e  o decreto norte americano de embargo econômico do Irã.
     A Guerra terminou em 1988, com assinatura do cessar fogo e sem provocar qualquer alteração territorial iraquiana como pretendia Saddam Hussein.

A Guerra do Golfo (1991)  

      Essa guerra foi resultado da invasão do Kuwait pelos iraquianos em agosto de 1990. Segundo Saddam Hussein, presidente do Iraque, era uma resposta ao fato de aquele país estar vendendo petróleo acima dos níveis estabelecidos pela OPEP ocasionando uma queda nos preços do produto e, desse modo, causando um prejuízo de bilhões de dólares ao caixa iraquiano. Além disso, essa questão Iraque-Kuwait traduzia também uma velha questão territorial, na qual os iraquianos alegavam que o Kuwait era um Estado artificial, criado pelos ingleses em parte do território iraquiano e sobre um poço de petróleo.
     A guerra foi, na verdade, uma ofensiva militar proposta pelo então presidente dos EUA George W. Bush, também aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e constituída por 28 países. O Brasil sob o governo de Fernando Collor não integrou a força conjunta.
     A ONU autorizou a ofensiva em razão de Saddam não retirar as tropas do Kuwait até 15 de janeiro de 1991, como ficou determinado pelo Conselho de Segurança. A operação Tempestade no Deserto, comandada pelo General Collin Powell, em três semanas evacuou o Kuwait das tropas do Iraque. Em meio ao conflito, Saddam bombardeou Israel e a Arábia Saudita. Em 28 de fevereiro de 1991 foi firmado o cessar fogo. A trajetória do Afeganistão
     Em 1979 a URSS promoveu uma intervenção no Afeganistão, na oportunidade Leonid Brejnev, líder soviético, agiu de modo a manter o governo afegão alinhado à Moscou. Nos anos 1980 a presença soviética naquele país enfrentou a resistência dos Mujahidins (guerrilheiros), que recebiam apoio externo dos Estados Unidos, Paquistão entre outros. Na oportunidade os EUA estavam sob o governo Ronald Reagan, cujo propósito, como ele mesmo dizia, era transformar o Afeganistão no Vietnã dos soviéticos.
     Em 1988, o líder soviético Mikhail Gorbatchev acenou com uma proposta de retirada das tropas soviéticas do Afeganistão, que resultou na assinatura de um acordo plurilateral: URSS, EUA, Paquistão e Afeganistão. Saíram os soviéticos, mas a guerra civil continuou. Nesse contexto, em 1996 a Milícia Talibã assumiu o poder e no ano seguinte foi reconhecido, como governo afegão, pelo Paquistão e Arábia Saudita.
     No final da década de 1990, o Afeganistão foi pressionado para entregar Osama Bin Laden a ONU para ser julgado por crime de terrorismo. Os EUA o haviam responsabilizado pelos atentados a bomba nas embaixadas norte americanas no Quênia e na Tanzânia. De modo a pressionar o governo Afegão, a ONU impôs sanções financeiras ao país, sem nenhum resultado prático.
     Em 2001 ocorreu o fatídico atentado do 11 de setembro, que atingiu as torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque, em que foram utilizados aviões comerciais da American e da United Airlines. O governo George W. Bush não teve nenhuma dúvida em acusar Bin Laden, líder da Al Qaeda, como responsável pelo atentado. A partir daí os EUA organizaram uma ofensiva contra o terror. Ainda em 2001 teve início a ofensiva Anglo-Norte Americana sobre a Al-Qaeda e sobre o Talibã. Após a queda do governo Talibã, formou-se um governo de coalizão com o apoio da ONU.

A Guerra do Iraque ou contra o terror (2003)

     Em março de 2003 sem aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, uma coligação anglo-americana iniciou uma ofensiva sobre Bagdá. Depois de se instalar na capital iraquiana, as forças de intervenção foram legitimadas pela ONU. O argumento utilizado pelos Estados Unidos era uma acusação a Saddam de estar construindo armas de destruição em massa, contrariando as sanções aplicadas ao país desde a Guerra do Golfo de 1991.

     Em abril as forças da coligação tomaram Bagdá. Ainda em 20003, em dezembro, Saddam foi capturado em Tikrit sua cidade natal. Julgado por um Tribunal Especial Iraquiano, Saddam foi condenado à morte e executado por enforcamento. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Unidade XXIV: A Ásia após 1945

A Ásia após 1945
                                              
A independência da Índia (1947)

      Desde 1859, após dois anos de guerra contra os Cipaios, os ingleses estabeleceram o seu domínio sobre território, que hoje abriga a Índia, o Paquistão, a República de Bangladesh e o Sri Lanka. Até 1947 os britânicos deram as cartas na região.      No século XX, a partir dos anos 1920, emergiram as lideranças de Mahatma Gandhi e de Jawaharlal Nehru dentro do Partido do Congresso, organização partidária, que congregava a etnia hindu, fundada no final do século anterior. A partir daí se impôs a diretriz da não violência, da via pacífica defendida por Gandhi. Segundo ele a luta pela emancipação não exigia o derramamento de sangue. O pensamento gandhista apontava também para a preservação da unidade territorial e política, de modo a abrigar as diferentes etnias da região (hindus, muçulmanos e budistas). Nesse ponto havia uma divergência entre Gandhi e o líder da Liga Muçulmana Mohamed Ali Jinnah, porque o movimento islâmico defendia a criação de território destinado aos muçulmanos separado do território hindu.
     Em 15 de agosto de 1947, foi assinado um acordo pelo Reino Unido, pelo líder hindu Nehru e pelo líder muçulmano Jinnah, no qual ficou estabelecida a emancipação do protetorado britânico e, ao mesmo tempo, a definição do território destinado aos muçulmanos.
     Após a independência foram criados o Estado indiano e o Estado muçulmano, este ocupando dois territórios separados pela Índia, denominados Paquistão Ocidental e Paquistão Oriental. Em 1972, após uma série de incidentes e conflitos entre os muçulmanos instalados nos dois territórios, eles se separaram em dois Estados: Paquistão e República de Bangladesh. Outra questão decorrente da partilha do território envolveu a região da Caxemira, essa região foi dividida entre a Índia e o atual Paquistão. Entretanto essa divisão até hoje é contestada pelos muçulmanos, que entendem que a Caxemira deve ser integralmente deles por ser histórica e culturalmente muçulmana. Decorre daí uma série interminável de conflitos entre os dois Estados desde os anos 1950 e que oferece um risco terrível pelo fato de ambos terem armas atômicas.
      Com relação a independência da Índia vale registrar, que ela fez parte da estratégia britânica de negociar a emancipação de suas colônias, desde que pudesse manter os vínculos econômicos, políticos e culturais com elas. Isso resultou no ingresso dessas ex-colônias na Commonwealth (comunidade britânica) como foram os casos da Índia, do Paquistão, da Nova Zelândia, da Austrália, do Canadá entre outras.

                                               











A Revolução Chinesa (1949)

     Em 1º de outubro de 1949 Mao Tsé-Tung, o Grande Timoneiro, assumiu o poder após duas décadas de guerra civil, iniciada em 1927, entre os comunistas e as forças governistas do Gal Chiang Kay-Shek. Essa guerra teve um breve hiato entre 1937 e 1945, quando os comunistas se dispuseram a combater a invasão japonesa ao país ao lado das forças do governo.
     Essa guerra civil teve início quando o Gal Kay-Shek assumiu o poder em 1925 e não tardou a por fim a aliança política interna da qual os comunistas faziam parte. Em 1927 Kay-Shek ordenou a perseguição e prisão dos comunistas. Diante disso os comunistas repercutindo a influência do Komintern deram início à luta armada contra o governo. Inicialmente o movimento revolucionário se instalou nos centros urbanos, no entanto após alguns insucessos, Mao Tsé-Tung liderou uma movimentação de +/- 100 mil homens em direção às províncias do interior da China,  era a Longa Marcha.  Nas províncias os guerrilheiros integraram-se a comunidade camponesa e a inseriu no processo revolucionário, começando assim a via camponesa da Revolução Chinesa.
     A vitória do PCC fez com que o governo Harry Truman dos Estados Unidos reagisse de modo a tentar  diminuir o impacto dessa vitória no plano internacional e no jogo de forças da Guerra Fria instalada a partir de 1947. Assim Truman apoiou a transferência de Kay-Shek e seu governo para a Ilha de Formosa (atual República de Taiwan) e empenhou-se para que na ONU a representação chinesa na Assembleia Geral e no Conselho de Segurança permanecesse a cargo do governo Chiang Kay-Shek afastando, portanto o ingresso de mais um governo comunista como membro permanente do Conselho de Segurança e com direito de veto.


A China sob governo comunista

     Com a instalação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949, teve início o governo Mao Tse-Tung  dos comunistas naquele país. Na década de 1950 os chineses intervieram no Tibete, participaram da Guerra civil coreana em apoio aos norte coreanos, em oposição aos Estados Unidos e iniciaram a realização do 1º Plano Quinquenal com o apoio dos soviéticos em 1953. Essa cooperação entre Pequim e Moscou ficou abalada após a ascensão de Nikita Kruschev na URSS, cujas diretrizes de governo mereceram críticas severas de Mao.
     Em 1956 Mao lançou a Campanha das Cem Flores oferecendo à população o direito de criticar a classe dirigente. Entretanto, isso se tornou um instrumento para que Mao identificasse os setores mais resistentes ao PCC e pudesse reprimi-los.
     Em 1958 Mao lançou o 2º Plano Quinquenal, que ele denominou de Grande Salto cujo objetivo era transformar a China numa potência industrial, mas os resultados foram decepcionantes, com indicativo da ocorrência de numerosas mortes por fome.
     As divergências entre Mao e Kruschev resultaram num estremecimento das relações e o rompimento delas em 1962. A partir daí foram inúmeras as vezes que chineses e soviéticos estiveram muito próximos de um conflito de gravíssimas proporções.
     Em 1966 em razão do fracasso do Grande Salto, que Mao atribuiu ao fato da sociedade não estar completamente ideologizada, foi iniciada a Grande Revolução Cultural, que marcou o endurecimento do regime e a utilização, em grande escala, da repressão. Além disso, a Revolução Cultural impôs o fechamento econômico da China para o exterior. A Revolução contou com apoio da juventude chinesa que integrou as Guardas Vermelhas.
     No início dos anos 1970 houve uma aproximação entre Washington e Pequim promovida pelo governo Richard Nixon e seu Secretário de Estado Henry Kissinger, cujo principal resultado foi o  ingresso da China Popular na ONU, com a exclusão da China Nacionalista. Em 1979 foram formalizadas as relações diplomáticas entre os dois países. Essa aproximação fez parte de uma estratégia norte americana de usar a China na contenção da influência soviética na Ásia.
     Em 1976 morreram Mao Tse-Tung e Chou Em Lai os representantes da velha guarda do PCC. A morte de Mao abriu uma disputa pelo poder entre o Grupo de Xangai liderado pela viúva de Mao, Chiang Ching adepto da Revolução Cultural e o Grupo Reformista sob liderança de Deng Xiao-Ping. A vitória do grupo de Xiao-Ping resultou na prisão, julgamento e condenação do chamado Bando de Xangai ou Camarilha dos Quatro e na implementação de uma política de mudança de rumos da economia com:



- a desorganização das Comunas Populares (terras coletivas), incentivando a agricultura familiar e a criação do mercado livre para o setor;

- a criação das ZEEs (zonas econômicas especiais) o que atraiu investimentos estrangeiros para os setores da indústria e de serviços. Nelas foram admitidas as relações capitalistas de produção, isso formatou o que se denomina socialismo de mercado;

- a adoção do Programa das quatro modernizações direcionado aos setores da ciência, da indústria, da tecnologia e da defesa.

     Em 1989, após um longo período de relações congeladas, a China e a URSS reataram politicamente concretizada na visita de Gorbachev a Pequim. A visita de Gorbachev à China estimulou um movimento da juventude chinesa em defesa das liberdades e da democracia, que foi violentamente reprimido pelo governo num episódio conhecido como a Primavera de Pequim. Esse episódio de 1989 mostrou com clareza ao mundo, que as mudanças econômicas promovidas pelo grupo de Deng Xiao-Ping não repercutiram no campo político, ou seja, o Estado continuaria com a mesma estrutura fechada da época maoísta.

Em razão de nova orientação do governo chinês, abriu-se um canal de conversação com o governo do Reino Unido, cujo resultado foi a devolução da Ilha de Hong-Kong aos chineses em julho de 1997
                                                

A Guerra da Coreia (1950/1953)

     Essa guerra entre as duas Coreias teve início quando houve uma ofensiva da Coreia do Norte sobre o sul da Península, numa tentativa de promover a reunificação do país. A Coreia na Segunda Guerra esteve sob domínio japonês e foi libertada por uma ação soviética e norte americana, o que deu as duas superpotências o “direito” de promoverem a sua divisão em dois governos tendo como referência o Paralelo 38ºn: no sul um governo pró-EUA e no norte um governo pró-URSS, Moscou e Washington acertaram a realização de um plebiscito no sul para ratificar ou não a divisão. Quanto ao plebiscito, nunca foi realizado.
     No início do conflito, houve uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, que deliberou pelo envio de uma força internacional constituída basicamente pelo exército dos EUA e alguns de seus aliados. As Forças Internacionais intervieram e instalaram-se na Coreia do Norte próximas da fronteira chinesa. Essa situação levou o governo de Pequim a enviar ajuda ao governo de Pyong Yong tornando a guerra muito mais perigosa. Depois de intensos combates, os dois lados decidiram assinar um acordo de cessar fogo de Panmunjon, que reafirmou a divisão pelo Paralelo 38, vigente até hoje.

A Guerra da Indochina (1946/1954) e a Guerra do Vietnã (1965/72)

     Essas guerras tiveram suas origens na luta de libertação da Indochina do domínio francês, instalado desde o século XIX. A guerra de libertação contra a França foi promovida pelo Vietminh (Frente de Libertação) sob a liderança de Ho Chi Minh fundador do Partido Comunista do Vietnã. Essa luta teve início na década de 1930 contra os franceses, durante a Segunda Guerra Mundial a luta se voltou contra os japoneses que haviam ocupado a Península Indochinesa (Laos, Camboja e Vietnã). Em 1946 após a expulsão dos nipônicos, Ho chi Minh proclamou a independência do Vietnã e instalou um governo no Norte. Os franceses reagiram não reconhecendo a independência e instalaram no sul do Vietnã um governo fantoche do Imperador Bao Daí. A guerra contra a França estendeu-se até 1954, em que ocorreu a vitória do Vietminh na Batalha Diem Bien Phu. A derrota francesa resultou na formação do governo comunista em Hanói e, por negociação,  a permanência do governo Bao Dai em Saigon (pró-Ocidente), até que um plebiscito no Sul ratificasse ou não a divisão, condição aceita pelos comunistas.
     Entretanto, em 1955 ocorreu um golpe de estado em Saigon liderado pelo Gal Ngo Dinh Diem, declaradamente anticomunista entre suas primeiras decisões, uma foi a suspensão do plebiscito decisão prontamente apoiada pelos EUA (Governo Eisenhower). Os comunistas de Hanói reagiram criando a Frente de Libertação Nacional e decidiram pela luta armada como forma de derrotar Ngo Diem.
     Em 1961 o novo Presidente dos EUA J. F. Kennedy deu início ao envolvimento norte americano no Vietnã, num primeiro momento enviando o que ele chamava de “conselheiros militares”. Estima-se que cerca de 15 mil “conselheiros” tenham sido enviados a Saigon. Como Ngo Dien estendia a sua intolerância aos budistas, o Vietnã passou a ser palco das manifestações silenciosas dos monges budistas que se auto imolavam. A morte do ditador e o quadro de instabilidade determinaram a entrada dos EUA de forma direta no conflito. O governo norte americano (Lyndon Johnson) usou como justificativa um ataque norte-vietnamita a navios americanos no Golfo de Tonquim para dar início a ofensiva militar sobre Hanói.
     De 1965 a 1972 desenvolveu-se a Guerra do Vietnã, inicialmente entre Hanói e os EUA, a partir do início dos anos 1970 ela se estendeu ao Laos e ao Camboja em razão do bombardeio norte-americano àqueles países sob o argumento de destruir a Trilha de Ho Chi Minh (rede de estradas usadas pelos guerrilheiros do Vietcong ). A ampliação do conflito para toda a Indochina somada as frequentes manifestações nos Estados Unidos contra a guerra, como por exemplo, no Festival de Woodstock, dos jovens nas universidades, e do movimento Hippie entre outros levaram o governo Richard Nixon a assinar com Hanói o Acordo de Paris em janeiro de 1973 no qual os EUA retirariam suas tropas e fariam com Hanói a troca de prisioneiros.
     Em 1976 após 30 anos, quase ininterruptos, chegava ao fim a Guerra do Vietnã com a vitória dos comunistas e a consequente unificação política e territorial do país. Era criada a República Socialista do Vietnã. No balanço da guerra contabilizou-se a morte de mais ou menos três milhões de norte vietnamitas entre civis e guerrilheiros. Pelo lado norte americano cerca de 46 mil soldados mortos.

A independência da Indonésia e a Conferência de Bandung de 1955

     Os indonésios conquistaram a independência após uma dura guerra de libertação contra os holandeses entre 1946 e 1949. A guerra tornou-se necessária pelo fato de a Holanda não ter reconhecido a Declaração de Independência feita pelo Partido Nacionalista Indonésio sob a liderança de Ahmed Sukarno logo após a expulsão dos japoneses, que haviam invadido a Indonésia na Segunda Guerra Mundial.
     De 1949 a 1965 o país ficou sob governo do líder nacionalista Sukarno, cujas diretrizes de governo (nacionalismo, islamismo, marxismo e não alinhamento) desagradavam aos interesses de Washington, aja vista a política de cooperação entre os indonésios e os chineses. Em 1955 Sukarno foi um dos articuladores e o anfitrião da Conferência de Bandung.
     Essa Conferência reuniu 29 países, sendo 15 asiáticos (China, Camboja, Vietnãs, Japão, Paquistão e outros), 8 do Oriente Médio (Turquia, síria, Líbano e outros) e 6 africanos ( Gana, Etiópia, Egito, Líbia, Libéria e Sudão). Nela os países membros aprovaram entre outros pontos:

- a declaração de apoio a emancipação de todas as colônias;

- a declaração de não alinhamento incondicional aos EUA ou à URSS, os países decidiram pela equidistância das Super Potências, de modo a não serem reféns dos interesses delas.

- respeito à soberania e integridade territorial de todas as nações;

- recusa na participação dos preparativos da defesa coletiva destinada para servir aos interesses particulares das superpotências;

- solução de todos os conflitos internacionais por meios pacíficos (negociações e conciliações, arbitradas por tribunais internacionais);

- estímulo aos interesses mútuos de cooperação.

     Em 1965, após ter superado tentativas anteriores de golpes, Sukarno caiu frente ao movimento golpista liderado pelo General Mohamed Suharto sob o argumento de não permitir que o país caísse sob domínio dos comunistas tolerado por Sukarno. O novo governo de imediato abandonou o não alinhamento assim como se distanciou de Pequim e de Moscou. Portanto, nenhuma surpresa que ele logo obtivesse o reconhecimento do governo Lyndon Johnson.
     No governo Suharto (1965/1999) a Indonésia invadiu o território do Timor Leste em 1975 sob o argumento de que o território timorense era indonésio e havia sido usurpado pelos portugueses no século XV. Nos 24 anos de domínio indonésio, os timorenses enfrentaram a opressão política, a intolerância religiosa e a obrigação de adotar o idioma indonésio em lugar do português.






O Japão

     Após a derrota na Segunda Guerra, cuja rendição se deu em 2 de setembro de 1945 em razão dos bombardeios atômicos sobre Hiroshima e Nagasaky em 6 e 9 de agosto respectivamente, o Japão sofreu a intervenção norte americana comandada pela Gal Mc Arthur de 1946 a 1951.
     Nesse período o Japão passou por algumas mudanças como a da instituição do parlamentarismo. Em 1951, repercutindo a vitória dos comunistas na China, os EUA retiraram a intervenção e propuseram aos japoneses um acordo de cooperação, que teve dois efeitos:

- a entrada de capitais norte-americanos, que produziram a rápida recuperação da economia japonesa naquilo que se chamou de milagre japonês. Um crescimento econômico com base nos zaibatsus, que haviam sido acusados pelo governo dos EUA de terem financiado o Japão na Segunda Guerra;


- o ingresso do Japão no sistema de aliança construído pelos Estados Unidos dentro da Guerra Fria.